A genuína concepção de Estado transcende amplamente o jurídico, o burocratismo e os contratos sociais fictícios da contemporâneedade liberal. Se a realidade fenomenológica desprovida de soberania é, por definição intrínseca, uma multiplicidade fragmentada, caótica e tendente à dissolução total, o Estado surge como o Eidos supremo da forma arquetípica e ordenadora que impõe a unidade inexorável à toda matéria dispersa. O Estado "emanou-se" de um pacto utilitário entre indivíduos atômicos, pois o indivíduo isolado de uma estrutura orgânica comunitária constitui uma flagrante contradição lógica, um efeito destituído de causa primária e uma potência incapaz de atualizar-se por si mesma.
Os materialistas (liberais ou marxistas) tentam de todas as formas nos fazer acreditar que o Estado serve ao seu povo por uma obrigação assistencialista desprovida de sentido, desconsiderando uma necessidade existencial mútua entre povo Estado. Sendo o cérebro do organismo social, as instituições do Estado devem zelar pela saúde, nutrição, segurança e pela evolução técnica de seus cidadãos, garantindo que o próprio corpo nacional não definhe frente às pressões externas. O serviço ao povo traduz-se na manutenção da substância do próprio Estado, pois é o povo organizado que dá forma, legitimidade e razão de ser à soberania. Em consonância com essa responsabilidade, o Estado possui o dever inalienável de atuar como o sistema imunológico da cultura, filtrando influências internacionais e defendendo o elo sagrado entre o homem e a sua terra.
O dever fundamental do Estado não se restringe à figura passiva de um vigilante noturno ou de um burocrata assim como liberalismo propõe e assim desvirtuando o Estado; ele assume a posição ativa de um motor ordenador supremo, com total monopólio da violência. A missão primordial do Estado é a sustentação intransigente da unidade nacional, organizando a sociedade de maneira estritamente orgânica e funcional. Cabe ao poder público garantir que cada cidadão, atuando como unidade viva de trabalho, esteja integrado em sua respectiva estrutura de cooperação e deveres para com a pátria. O Estado substitui com firmeza o conflito das classes, dividindo a comunidade não por classes, mas sim por sua função como indivíduo ma comunidade nacional onde o esforço e o fruto do trabalho de cada membro alimentam diretamente a potência integradora do todo.
Em nossa concepção, para a plena realização do Estado em sua função legítima, compreende-se que essa concentração em um território delimitado não se resume a uma mera massa demográfica estatiada que aprisiona o homem como os anarquistas enxergam, mas forma um verdadeiro corpo de potência telúrica em interação física, cultural e metafísica constante com o seu solo ancestral. Nesse modelo de soberania proposto, o Estado atua como uma estrutura arquitetônica que brota diretamente das condições de sua geografia, de sua história perene e de suas tradições. Nenhum átomo pode situar-se à margem ou em oposição frontal ao Estado, sob pena de instaurar-se um perigoso vácuo de ordem que ameaça a coesão coletiva, exigindo imediata reintegração para a preservação da integridade da Pátria.
Portanto, como apontado na última postagem, o Estado manifesta-se como expressão máxima da natureza consciente de forma coletiva e soberana. Ele representa o ponto culminante onde as leis cegas da biologia, da história e da física se transmutam em vontade de ordem e progresso rumo ao destino da nação. Por isso a existência histórica e ontológica do Estado é legitimada por sua necessidade inevitável perante as exigências da sobrevivência civilizacional. Analisando o processo histórico em sua profundidade, os povos evoluíram para se fixar firmemente em um solo específico, estabelecendo com ele e com seus pares uma relação simbiótica de identidade e destino, culminando na formação das primeiras comunidades orgânicas e, por conseguinte, do Estado
—Ariano Suassuna. Iniciação à Estética Popular.
—Paulo Prado. Retrato do Brasil: Ensaio sobre a tristeza brasileira.
A própria unidade territorial do Brasil, singular em um continente retalhado por repúblicas fragmentadas, deve-se em grande medida a essa língua espiritual comum fornecida pela Igreja, que uniu sob a mesma cosmovisão povos de distintas origens e matizes culturais, fundindo-os em uma nação dotada de uma alma coletiva inconfundível. Portanto, preservar e fomentar essas raízes rituais e culturais é um ato de resistência civilizacional indispensável. Reconhecer que o Brasil pulsa ao ritmo de sua fé e de suas tradições ancestrais é o principal passo que damos rumo a um país comprometido com sua realidade e destino, onde o futuro da Pátria seja edificado sobre a rocha sólida da sua mais autêntica e profunda identidade espiritual. Espero um dia ver um Brasil onde a Cruz reine em um povo sem tormento e com fé inabalável.




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